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Quando o desejo não caminha no mesmo ritmo: como o casal pode se encontrar sem culpa e sem cobrança

Quando o desejo não caminha no mesmo ritmo: como o casal pode se encontrar sem culpa e sem cobrança

por Renata Lanza de Melo Franco - CRP 04/23203

A diferença de desejo sexual entre parceiros é um tema muito mais comum do que se imagina, embora ainda seja cercado de silêncio, culpa e interpretações equivocadas. Foi a partir dessa constatação que nasceu a conversa entre Tati Perez, psicóloga e terapeuta de casal, e Renata Lanza, psicóloga clínica especialista em sexologia e educação sexual, no podcast Ouvi na Terapia de Casal. Ao longo do episódio, as duas ampliam o olhar sobre o desejo, tirando-o de um lugar simplista e recolocando-o dentro da complexidade das relações humanas.

Quando falamos em discrepância de desejo, estamos nos referindo à situação em que, dentro de um relacionamento, uma pessoa deseja mais contato sexual do que a outra. Esse desencontro, no entanto, não deve ser entendido automaticamente como um problema individual ou como sinal de que algo está "errado" com alguém. A sexualidade humana é biopsicossocial, ou seja, é atravessada por fatores biológicos, psicológicos, emocionais, culturais, sociais, históricos e até religiosos. Reduzir o desejo apenas ao ato sexual ou a uma questão fisiológica empobrece a compreensão do que está realmente acontecendo no casal.

A Organização Mundial da Saúde define a sexualidade como um aspecto central do ser humano ao longo da vida, que envolve não apenas o sexo em si, mas também identidade de gênero, papéis sociais, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. Isso significa que o desejo não surge isolado, mas como parte de um sistema muito mais amplo. Por isso, ao falar de discrepância de desejo, é fundamental considerar o contexto de vida, a história do casal, as crenças individuais e a forma como cada pessoa aprendeu a se relacionar com o próprio corpo e com o prazer.

Durante a conversa, Renata Lanza explica que a ciência já mostrou que o desejo sexual não funciona de maneira linear. Por muito tempo, acreditou-se que o desejo sempre vinha antes da excitação, mas pesquisas mais recentes demonstram que isso nem sempre acontece. Em relacionamentos longos, por exemplo, é comum que o desejo espontâneo dê lugar ao chamado desejo responsivo, que surge a partir de estímulos, como um toque, uma conversa íntima ou um momento de conexão emocional. Isso ajuda a desconstruir a ideia de que, se o desejo não aparece "do nada", algo está errado com a relação.

Outro ponto importante abordado é a tendência de eleger um culpado quando o desejo não está alinhado. Muitas vezes, a pessoa que deseja menos acaba sendo vista como o problema do casal, especialmente quando se trata de mulheres, que historicamente carregam expectativas e cobranças maiores em relação à sexualidade. No entanto, desejar mais ou menos não torna ninguém inadequado. O desejo tem significados diferentes para cada pessoa. Para alguns, o sexo é uma forma de se sentir amado, validado ou conectado; para outros, ele ocupa um lugar menos central. Essas diferenças precisam ser compreendidas, e não julgadas.

Buscar ajuda profissional passa a ser importante quando a discrepância começa a gerar sofrimento. Não se trata de normalidade ou anormalidade, mas de impacto emocional. Quando o sexo deixa de ser prazeroso, quando surgem sentimentos de rejeição, culpa ou obrigação, ou quando o casal não consegue conversar sobre o tema sem conflito, a terapia pode ajudar a compreender o que está por trás da diminuição do desejo. Fatores como estresse, ansiedade, fase da vida, chegada de filhos, dificuldades financeiras, desconexão emocional, alterações hormonais e uso de medicações podem influenciar diretamente a libido.

A comunicação aparece como um eixo central em todo esse processo. Muitos casais têm intimidade para dividir a vida, mas travam quando o assunto é sexo. Vergonha, medo de ferir o outro ou crenças de que "sexo não se fala, se faz" dificultam diálogos que poderiam, inclusive, aumentar a conexão e o desejo. Falar sobre sexo de forma clara, respeitosa e assertiva é um aprendizado, e muitas vezes precisa ser treinado, inclusive em terapia.

Também é essencial desconstruir o mito da obrigatoriedade sexual. Casais não precisam estar sempre fazendo sexo para que a relação seja válida ou saudável. Há fases em que o desejo diminui, e se ambos estão de acordo com isso, não há necessariamente um problema. O sexo não é uma prova de amor constante, nem um dever conjugal. Forçar o outro, ceder por obrigação ou usar culpa e pressão como estratégia só tende a aumentar o afastamento e o sofrimento.

Outro ponto fundamental trazido na conversa é a responsabilidade individual pelo próprio prazer. Cada pessoa precisa conhecer o próprio corpo, entender o que gosta, quais são seus limites e desejos, para então conseguir comunicar isso ao parceiro. O outro não é responsável por "fazer sentir prazer", mas por compartilhar uma experiência que só pode ser realmente satisfatória quando há autoconhecimento e troca genuína.

Lidar com a discrepância de desejo de forma saudável passa por aceitar que diferenças existem, que elas mudam ao longo do tempo e que não há respostas prontas. O caminho envolve curiosidade, empatia, disposição para se escutar e coragem para conversar sobre temas difíceis. Mais do que buscar soluções rápidas, o convite é olhar para o desejo como um sinal que comunica algo sobre o indivíduo, o vínculo e o momento de vida do casal. Muitas vezes, compreender essa mensagem já é, por si só, um passo importante para a reconexão.

Renata Lanza de Melo Franco

Psicóloga clínica, especialista em Sexologia e Educação Sexual, com formação em Terapia Cognitivo Sexual.

Também especialista em Adolescência numa abordagem psicossocial.

Realizo atendimentos em terapia individual ou terapia de casal, atuando principalmente com demandas de relacionamentos, queixas sexuais, e autoestima feminina.

Também atuo com questões relacionadas à monogamia/não monogamia e às várias formas de amar. Atendimentos em português ou em inglês.