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O fim de um relacionamento é uma experiência que atravessa praticamente todas as pessoas em algum momento da vida. Ainda assim, por mais comum que seja, poucas vivências são tão difíceis de enfrentar. Isso porque um término não representa apenas a perda de alguém que amamos. Muitas vezes, significa também a perda de planos compartilhados, de uma rotina construída a dois, de sonhos para o futuro e até mesmo de uma parte da identidade que desenvolvemos dentro daquela relação.
No episódio do podcast Ouvi na Terapia de Casal, a psicóloga Laura Traub conversou sobre os motivos que tornam a superação de um término tão complexa e sobre os caminhos possíveis para atravessar esse processo de forma mais saudável.
Um dos pontos mais importantes da conversa foi a compreensão de que a dor do término não é apenas emocional. Ela também pode ser física e neuroquímica. Quando estamos em uma relação significativa, nosso cérebro se acostuma à presença daquela pessoa. Hormônios e neurotransmissores ligados ao prazer, ao bem-estar e à sensação de segurança são constantemente ativados. Quando o vínculo é rompido, há uma queda brusca dessas substâncias, enquanto os níveis de estresse aumentam.
É por isso que muitas pessoas relatam sintomas físicos após uma separação. Sensação de aperto no peito, falta de ar, vazio, insônia e dificuldade de concentração não são sinais de fraqueza ou exagero. São respostas reais do organismo diante de uma perda significativa. Em alguns casos, o sofrimento emocional pode ser tão intenso que provoca alterações temporárias no funcionamento cardíaco, reforçando a ideia de que o coração partido não é apenas uma metáfora.
Essa dimensão biológica também ajuda a explicar por que tantas pessoas têm dificuldade de encerrar definitivamente um relacionamento. Muitas recaídas não acontecem porque a relação voltou a fazer sentido, mas porque o cérebro busca desesperadamente aliviar o desconforto gerado pela ausência daquele vínculo. O retorno ao relacionamento pode oferecer um alívio momentâneo, semelhante ao que ocorre em processos de abstinência. No entanto, isso não significa que os problemas que levaram ao término tenham sido resolvidos.
Outro aspecto importante é que toda separação envolve um processo de luto. Assim como acontece diante de outras perdas significativas, é comum passar por momentos de negação, raiva, negociação, tristeza e aceitação. Porém, essas fases não acontecem de forma organizada ou linear. Uma pessoa pode sentir que está aceitando o término em um dia e, no dia seguinte, voltar a experimentar intensa tristeza ou esperança de reconciliação.
Compreender essa oscilação é fundamental para evitar a sensação de fracasso durante a recuperação. Voltar a sofrer não significa que você está retrocedendo. Significa apenas que está vivendo um processo humano e natural de adaptação a uma nova realidade.
A intensidade desse sofrimento também varia de acordo com a história de cada pessoa. Questões relacionadas ao estilo de apego, experiências de abandono, rejeição, dependência emocional e baixa autoestima podem tornar a separação ainda mais dolorosa. Muitas vezes, a dor vivida após o término não está relacionada apenas ao relacionamento que acabou, mas também a feridas antigas que foram reativadas por essa perda.
Por isso, o término pode se transformar em uma oportunidade valiosa de autoconhecimento. Ao invés de focar exclusivamente no comportamento do ex-parceiro, é possível voltar o olhar para si mesmo e perguntar: por que essa experiência me afetou dessa forma? Quais medos foram despertados? Que necessidades emocionais estavam sendo depositadas nessa relação? Quais padrões se repetem na minha história amorosa?
Ao mesmo tempo, existem comportamentos que podem prolongar o sofrimento e dificultar a recuperação. A tentativa constante de acompanhar a vida do ex pelas redes sociais, o envio frequente de mensagens, a manutenção de objetos que servem como gatilhos emocionais e a alimentação de fantasias sobre uma possível reconciliação costumam manter o cérebro preso ao vínculo que precisa ser elaborado.
Também é comum que as pessoas tentem fugir da dor por meio do excesso de trabalho, do consumo de álcool, de distrações constantes ou até mesmo iniciando um novo relacionamento antes de terem processado o término anterior. Embora essas estratégias possam oferecer alívio temporário, elas tendem a adiar o enfrentamento necessário para uma recuperação mais profunda.
Superar um término não significa eliminar a dor o mais rápido possível. Significa permitir-se senti-la, compreendê-la e integrá-la à própria história. Nesse processo, algumas atitudes podem fazer diferença, como cuidar do sono, manter uma alimentação adequada, praticar atividade física, escrever sobre os próprios sentimentos e buscar apoio de amigos e familiares.
Quando o sofrimento se torna muito intenso ou persistente, a terapia também pode ser um recurso importante. Diferentemente das conversas com amigos, o espaço terapêutico permite explorar as camadas mais profundas da experiência, compreender padrões emocionais e construir novos caminhos para o futuro.
Talvez uma das reflexões mais importantes trazidas pela conversa seja a ideia de que o fim de um relacionamento não necessariamente representa um fracasso. Existem relações que cumprem seu papel durante determinado período da vida. O fato de terem terminado não apaga os momentos vividos nem invalida os aprendizados construídos ao longo do caminho.
Superar um término não é esquecer o que aconteceu. É reconhecer a importância daquela experiência, compreender o que ela revelou sobre você e seguir em frente com mais clareza sobre quem é, o que deseja e quais limites pretende estabelecer nas próximas relações.
No final das contas, o encerramento de uma história pode ser também o início de uma relação mais honesta consigo mesmo. E, muitas vezes, é justamente a partir desse encontro que se torna possível amar novamente de forma mais consciente, madura e saudável.
Sou psicóloga, formada pela PUCRS 2012, e há mais de 9 anos atuo em Portugal, presencialmente no Porto e online para os quatro cantos do mundo (OPP 21608).
Especialista em relacionamentos, o meu olhar clínico é atravessado pela psicanálise, teoria sistémica e teoria do trauma, permitindo-me compreender o casal não apenas pelos conflitos visíveis, mas também pelas histórias, padrões emocionais e dinâmicas que sustentam a relação.
Ajudo casais a melhorarem a comunicação, fortalecerem a conexão emocional e desenvolverem relações mais conscientes, íntimas e intencionais.
O meu trabalho acontece de forma estruturada, personalizada e prática, ajudando cada casal a compreender a dinâmica da relação e a construir novas formas de se escutarem, se encontrarem e se relacionarem no dia a dia.