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Falar sobre saúde mental e relacionamentos LGBTQIAPN+ é, antes de tudo, falar sobre pertencimento. No episódio do podcast Ouvi na Terapia de Casal, a psicóloga Camila Pellizzer conversou sobre como preconceito, invisibilidade e falta de acolhimento social atravessam a vida afetiva de milhões de pessoas e deixam marcas que muitas vezes começam muito antes da vida adulta.
Quando pensamos nos impactos do preconceito, é comum imaginarmos situações explícitas de discriminação. No entanto, Camila chama atenção para algo ainda mais profundo: as mensagens que recebemos ao longo do desenvolvimento sobre o que é considerado aceitável ou não pela sociedade. Desde a infância, crianças aprendem quais comportamentos, expressões de gênero e formas de amar são valorizados ou condenados. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, isso significa crescer ouvindo, direta ou indiretamente, que existe algo de errado em quem elas são.
Essas experiências não se limitam a momentos isolados. Elas moldam a forma como a pessoa percebe a si mesma, constrói sua autoestima e aprende a se relacionar com os outros. Quando o preconceito está presente justamente nos espaços que deveriam oferecer proteção, como a família, a escola ou instituições de saúde, o impacto pode ser ainda maior. Não é por acaso que pesquisas apontam índices mais elevados de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e sofrimento psicológico entre pessoas LGBTQIAPN+.
Ao longo da conversa, surgiu uma reflexão importante sobre como essas vivências influenciam a construção dos vínculos amorosos. Quando alguém cresce sem referências consistentes de segurança emocional, pode encontrar mais dificuldade para confiar, se vulnerabilizar e acreditar que merece ser amado. Muitas estratégias de proteção desenvolvidas ao longo da vida, embora tenham sido fundamentais para a sobrevivência emocional, podem criar barreiras na intimidade e dificultar a construção de relações mais seguras.
Além disso, a relação com o próprio corpo e com o desejo também pode ser profundamente afetada. O processo de reconhecer sentimentos, validar desejos e acolher a própria identidade nem sempre é simples. Frequentemente, existe uma longa jornada de enfrentamento da culpa, da vergonha e das mensagens negativas internalizadas ao longo dos anos. Cada experiência é única, mas o desafio de aprender a olhar para si com mais aceitação aparece de diferentes formas dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
Apesar dessas dificuldades, a conversa também destacou uma dimensão extremamente potente dessa trajetória: a construção de pertencimento. Historicamente, muitas pessoas LGBTQIAPN+ encontraram na comunidade, nas amizades e nas chamadas famílias escolhidas aquilo que nem sempre encontraram nos ambientes de origem. Esses espaços oferecem acolhimento, identificação e a possibilidade de desenvolver novos modelos de vínculo baseados em respeito, segurança e cuidado mútuo.
Nos relacionamentos amorosos, esse apoio também pode desempenhar um papel fundamental. Casais que conseguem compreender a história um do outro, reconhecer os impactos do preconceito e desenvolver estratégias conjuntas de enfrentamento tendem a fortalecer seus laços. Muitas vezes, aquilo que parece ser apenas um conflito atual está conectado a experiências passadas de rejeição, exclusão ou medo. Quando existe espaço para compreensão e acolhimento, o relacionamento pode se transformar em um lugar de reparação emocional.
A conversa também abordou os desafios da prática clínica com casais LGBTQIAPN+. Embora muitos conflitos sejam semelhantes aos encontrados em qualquer relacionamento, existem especificidades que não podem ser ignoradas. Questões relacionadas à identidade de gênero, orientação sexual, processos de transição, estratégias de enfrentamento do preconceito e construção de redes de apoio exigem sensibilidade e conhecimento por parte dos profissionais. Criar um espaço terapêutico seguro não significa apenas afirmar que todos são bem-vindos. Significa demonstrar, na prática, respeito, validação e disposição para compreender as particularidades de cada história.
Nesse contexto, a terapia afirmativa ganha destaque como uma abordagem que busca reconhecer e valorizar as experiências LGBTQIAPN+, oferecendo um espaço de acolhimento e fortalecimento da identidade. Mais do que uma técnica, ela representa um compromisso ético com a dignidade e o bem-estar das pessoas atendidas.
Ao final do episódio, fica uma mensagem poderosa: garantir que alguém possa existir com autenticidade, segurança e dignidade é um ato profundamente humano e também político. Quando uma pessoa encontra espaços onde pode ser quem é, sem medo de julgamento ou rejeição, abre-se a possibilidade de construir relações mais saudáveis, vínculos mais seguros e uma vida mais alinhada com sua própria verdade.
Talvez seja justamente isso que o pertencimento oferece. Não apenas a sensação de estar entre iguais, mas a liberdade de existir plenamente. E quando essa liberdade encontra o amor, nasce um dos espaços mais potentes de cura e transformação que podemos experimentar.
Psicóloga CRP 07/26032 com Especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais e em Sexualidade Humana. Tem como missão auxiliar pessoas e casais a descobrirem e se conectarem com sua forma de amar (monogâmica ou não). Hoje realiza sua missão através dos atendimentos clínicos online a casais e também através da capacitação Ser Terapeuta de Casal que educa e empodera psicólogas no atendimento com casais. Luta por um mundo em que a diversidade seja reconhecida para que todos possam receber atenção, acolhimento e atendimento qualificado. Idealizadora deste site de indicações e supervisora das/os psicólogas/os nele cadastradas/os.