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O perigo dos pensamentos automáticos na vida a dois

O perigo dos pensamentos automáticos na vida a dois

por Samantha Alves Pereira de Souza - CRP 04/54059

Quantas vezes uma frase aparentemente simples se transforma em uma ofensa? Um silêncio é entendido como rejeição, um atraso como falta de interesse e uma expressão mais fechada como sinal de que alguma coisa está errada no relacionamento.

Em muitos conflitos amorosos, o problema não está necessariamente no que aconteceu, mas na forma como interpretamos aquilo que aconteceu.

Entre o comportamento do outro e a nossa reação existe um processo que, muitas vezes, acontece tão rapidamente que sequer percebemos. Observamos uma situação, atribuímos um significado a ela, sentimos algo a partir dessa interpretação e, então, reagimos. É justamente nesse espaço que aparecem as chamadas distorções cognitivas.

As distorções cognitivas podem ser compreendidas como formas distorcidas de interpretar a realidade. É como se enxergássemos determinadas situações através de lentes embaçadas. O acontecimento está diante de nós, mas aquilo que vemos também é influenciado por nossas crenças, experiências anteriores, medos e expectativas.

Isso não significa que exista alguma doença ou problema psicológico por trás desse processo. As distorções cognitivas fazem parte do funcionamento humano e todos nós podemos experimentá-las. A dificuldade aparece quando uma interpretação deixa de ser percebida como uma possibilidade e passa a ser tratada como uma verdade absoluta.

Se penso que meu parceiro está me ignorando, por exemplo, posso sentir raiva, tristeza ou rejeição. A partir disso, talvez eu cobre, critique, me afaste ou responda de maneira hostil. O outro, por sua vez, reage ao meu comportamento e rapidamente podemos entrar em um conflito que começou não por aquilo que realmente aconteceu, mas pelo significado atribuído à situação.

## Por que isso acontece tanto nos relacionamentos?

As relações amorosas são alguns dos vínculos mais íntimos que estabelecemos ao longo da vida. Dividimos rotina, vulnerabilidades, expectativas, projetos, medos e aspectos da nossa intimidade que poucas pessoas conhecem.

Com o passar do tempo, também desenvolvemos a sensação de conhecer profundamente quem está ao nosso lado. Começamos a acreditar que sabemos como aquela pessoa pensa, o que determinadas expressões significam e quais são suas intenções.

É aí que mora um risco.

Conhecer alguém durante muitos anos não significa ter acesso à sua mente. Ainda assim, podemos começar a preencher as lacunas das situações com aquilo que acreditamos já saber sobre o outro.

A própria história do relacionamento contribui para isso. Imagine que, algumas vezes, seu parceiro tenha chegado em casa mal-humorado depois de vocês terem discutido pelo WhatsApp. Depois de essa situação se repetir, talvez você passe a associar automaticamente o mau humor dele a algum problema entre vocês.

Em outro dia, ele chega novamente com uma expressão fechada. Mesmo que vocês não tenham discutido, sua mente rapidamente conclui: "Ele está irritado comigo".

Talvez esteja.

Mas talvez tenha acontecido alguma coisa no trabalho, no trânsito ou em qualquer outra área da vida.

A questão não é concluir que nossas interpretações estão sempre erradas. É perceber que elas são interpretações e precisam ser diferenciadas dos fatos.

## As distorções cognitivas mais comuns entre casais

Uma das mais frequentes é a leitura mental. Ela acontece quando acreditamos saber o que a outra pessoa está pensando, sentindo ou pretendendo sem que ela tenha necessariamente comunicado isso.

"Ela fez isso porque não se importa comigo."

"Ele ficou em silêncio porque está com raiva."

"Ela não quis sair porque não gosta mais de ficar comigo."

Outra distorção comum é a rotulação. Em vez de observarmos um comportamento específico, transformamos esse comportamento em uma característica rígida da pessoa. Alguém deixa de ter apresentado um comportamento ciumento em determinada situação e passa a ser definido como "uma pessoa ciumenta".

Quando criamos esses rótulos, podemos começar a enxergar apenas aquilo que os confirma. Os momentos em que a pessoa age de maneira diferente simplesmente passam despercebidos.

Algo semelhante acontece com a supergeneralização, muito presente nas frases "você sempre" e "você nunca".

"Você nunca me escuta."

"Você sempre coloca sua família na minha frente."

"Você nunca se preocupa comigo."

Pouquíssimos comportamentos acontecem realmente sempre ou nunca. Entretanto, quando estamos emocionalmente envolvidos em uma situação, essas generalizações podem parecer absolutamente verdadeiras.

Também existe a personalização, que ocorre quando interpretamos situações negativas como se necessariamente estivessem relacionadas a nós. O parceiro chega mal-humorado e imediatamente pensamos que fizemos alguma coisa errada. A parceira está mais quieta e concluímos que existe algum problema conosco.

Nem tudo que acontece com quem amamos é sobre nós.

Por fim, existe a catastrofização. Um problema específico passa a representar uma ameaça enorme ao relacionamento.

A louça não lavada deixa de ser apenas uma tarefa doméstica não realizada e se transforma em uma prova de que "essa pessoa nunca vai mudar", "vamos brigar para sempre" ou "nosso relacionamento não vai dar certo".

O problema deixa de ser a louça. Passa a ser o futuro inteiro da relação.

## Quando o passado começa a interpretar o presente

Nossas interpretações não surgem do nada.

Elas carregam a história construída dentro do próprio relacionamento, mas também experiências que aconteceram muito antes de conhecermos nossa parceria atual.

Uma experiência de infidelidade, por exemplo, pode modificar profundamente a forma como determinados comportamentos são interpretados. Se, no passado, esconder o celular esteve relacionado a uma traição, um comportamento semelhante no presente pode rapidamente ativar a interpretação de que "está acontecendo novamente".

Da mesma forma, experiências vividas na família ou em relacionamentos anteriores podem influenciar nossa percepção.

Uma pessoa com uma história marcada por experiências de abandono pode ficar especialmente sensível a situações que lembrem afastamento. Algo que para outra pessoa seria interpretado apenas como uma mudança de planos pode ser experimentado como rejeição.

Isso acontece porque nossa mente procura coerência. Tentamos compreender as novas experiências a partir daquilo que já conhecemos.

O problema é que coerência não significa necessariamente realidade.

Aquilo que aconteceu anteriormente pode ajudar a explicar por que interpretamos uma situação de determinada maneira, mas não prova que a interpretação atual esteja correta.

## O que é meu e o que realmente pertence ao relacionamento?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para quem deseja construir relações mais conscientes.

Observar padrões pode ser um bom começo.

Se determinadas interpretações aparecem repetidamente em diferentes relacionamentos, talvez exista algo da própria história que mereça atenção.

Se várias pessoas com quem me relacionei foram percebidas por mim como controladoras, por exemplo, posso começar a investigar o que determinadas situações despertam em mim. Isso não significa concluir automaticamente que ninguém tentou me controlar. Significa apenas abrir espaço para uma pergunta: será que existe alguma experiência anterior que torna esse tema especialmente sensível para mim?

A psicoterapia pode ser um espaço importante para esse processo porque permite investigar como experiências anteriores participam das relações atuais.

O objetivo não é apagar a própria história. Isso seria impossível.

O objetivo é impedir que o passado seja o único responsável por interpretar o presente.

## Pensamento não é fato

Pensamentos automáticos fazem exatamente aquilo que o nome sugere: aparecem automaticamente.

Não escolhemos conscientemente pensar "ele não se importa comigo" ou "ela está me rejeitando". Muitas vezes, essas interpretações surgem antes mesmo de termos tempo de analisar a situação.

Por isso, uma habilidade importante é aprender a observar o próprio pensamento antes de transformá-lo em comportamento.

Uma pergunta aparentemente simples pode fazer muita diferença:

"Que evidências eu tenho de que isso é verdade?"

Se meu parceiro chegou em casa calado, o fato é que ele chegou em casa e falou pouco.

"Ele está com raiva de mim" é uma interpretação.

Pode ser verdadeira, mas ainda precisa ser verificada.

Essa diferença parece pequena, porém pode modificar completamente a maneira como um conflito se desenvolve.

## Aprender a checar antes de concluir

Depois de avaliar individualmente aquilo que estamos pensando, podemos conversar com o outro.

Nesse momento, a maneira como comunicamos nossa interpretação faz diferença.

Existe uma distância enorme entre dizer "Você chegou em casa e me ignorou" e dizer "Percebi que você chegou mais quieto hoje e fiquei pensando se aconteceu alguma coisa. Tem algo a ver comigo?".

Na primeira frase, uma interpretação é apresentada como fato. Na segunda, existe curiosidade.

Quando conseguimos comunicar nossas percepções sem transformá-las imediatamente em acusações, damos ao outro a oportunidade de nos oferecer informações que ainda não possuímos.

Isso pode interromper um ciclo muito comum entre casais.

Uma pessoa interpreta determinado comportamento como ataque e reage. O parceiro se sente atacado pela reação e contra-ataca. A primeira pessoa entende esse contra-ataque como confirmação daquilo que já imaginava.

Em pouco tempo, ninguém mais sabe exatamente onde a briga começou.

Cada um acredita estar apenas reagindo ao outro.

## Mas nem tudo é distorção cognitiva

Existe um cuidado fundamental quando falamos sobre questionar nossas próprias interpretações: nem tudo está apenas na nossa cabeça.

Existem relacionamentos nos quais há manipulação, controle, violência psicológica ou violência física. Nessas situações, dizer constantemente para alguém questionar sua própria percepção pode ser extremamente perigoso.

Uma pessoa pode estar percebendo corretamente que está sendo desrespeitada, controlada, ameaçada ou agredida.

Por isso, questionar pensamentos não significa invalidar sentimentos ou desconfiar permanentemente da própria percepção.

Significa buscar evidências.

Em relações nas quais existe segurança emocional, conversar com o parceiro pode ajudar a esclarecer interpretações. Entretanto, quando existe risco emocional ou físico, essa vulnerabilidade pode ser utilizada contra a própria pessoa.

A autonomia para compreender aquilo que estamos vivendo precisa vir antes da validação do outro.

## Entre o que acontece e aquilo que sentimos existe uma história

Talvez um dos grandes desafios dos relacionamentos seja reconhecer que nunca enxergamos o outro de maneira completamente neutra.

Olhamos para quem amamos através das nossas experiências, das histórias que construímos juntos, das relações anteriores, das nossas inseguranças e também das nossas expectativas.

Isso não significa que precisamos desconfiar de todos os nossos pensamentos.

Significa apenas que podemos aprender a não tratá-los imediatamente como fatos.

Amadurecer no amor também envolve desenvolver a capacidade de perguntar:

"Isso realmente aconteceu dessa maneira ou essa é a maneira como estou interpretando o que aconteceu?"

Às vezes, uma pequena pausa entre a interpretação e a reação é suficiente para mudar o rumo de uma conversa.

Porque talvez o problema de muitos relacionamentos não esteja apenas no que o outro faz.

Às vezes, está também na história que contamos para nós mesmos sobre aquilo que o outro fez.

Aprender a pausar antes de reagir, checar antes de concluir e perguntar antes de presumir pode abrir espaço para algo que facilmente desaparece no meio dos conflitos: a curiosidade sobre quem está ao nosso lado.
 

Samantha Alves Pereira de Souza

Ei, pessoal! Sou a Samantha Alves, uma psicóloga clínica formada pela PUC Minas e uma terapeuta de casais apaixonada pelo que faz. Além disso, recentemente concluí meu mestrado em cognição e comportamento na UFMG. 

Tenho uma formação sólida em Psicologia Baseada em Evidências científicas (PBE), Terapia Cognitivo-comportamental (TCC), Psicopatologia e terapia de casal com base sistêmica-cognitiva. Sou a mente por trás do projeto "Amores Imperfeitos", e minha missão é melhorar a qualidade de vida das pessoas através de relacionamentos amorosos saudáveis.

Há anos venho dedicando meu trabalho clínico e online à psicologia das relações amorosas. Acredito que todos nós merecemos relacionamentos felizes, cheios de amor e compreensão.