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Quando um casal decide procurar terapia, geralmente chega acompanhado de uma expectativa: encontrar uma solução. Muitas vezes, uma solução rápida. Depois de meses ou até anos convivendo com conflitos, distanciamento, dificuldades na comunicação ou problemas na vida sexual, existe o desejo de finalmente encontrar alguém que diga o que fazer para que tudo volte a funcionar.
É justamente aí que alguns dos principais mitos sobre a terapia de casal aparecem.
Um dos mais comuns é imaginar que a terapeuta funciona como uma espécie de tribunal. O casal chega com suas versões da história e espera que a profissional diga quem está certo e quem está errado. Quem foi o culpado. Quem precisa mudar. Quem deveria pedir desculpas. Quem precisa fazer alguma coisa diferente.
Mas terapia de casal não é um tribunal.
A terapeuta não está ali para escolher um lado ou dar um veredito. Também não está ali para ocupar o lugar de uma mãe que precisa resolver os problemas dos filhos. O processo terapêutico não tem como objetivo dizer ao casal quem está certo, mas ajudá-lo a compreender o que está acontecendo naquela relação e qual é a participação de cada um na dinâmica que foi construída.
Outro mito bastante presente é o de que a terapia de casal deve ser o último recurso. Como se fosse necessário esperar o relacionamento chegar ao limite para então procurar ajuda.
A ideia de que "se nada mais funcionar, vamos para a terapia" pode fazer com que o casal procure ajuda apenas quando o sofrimento já está muito intenso. Felizmente, essa percepção vem mudando e cada vez mais pessoas procuram terapia também como uma forma de prevenção e cuidado com a relação.
Ainda assim, muitos casais chegam acreditando que a terapia será responsável por salvar o relacionamento.
E esse talvez seja um dos maiores equívocos.
A terapeuta não salva casamentos. Ela não pode garantir que o casal permanecerá junto e também não deve tentar convencê-lo a se separar. O papel da terapia é ajudar aquelas duas pessoas a compreenderem a relação que estão construindo, ampliarem a consciência sobre suas escolhas e encontrarem caminhos possíveis.
No final, decidir ficar ou se separar continua sendo uma decisão do casal.
A urgência é outro elemento importante quando falamos sobre terapia de casal.
É comum ouvir frases como "precisamos resolver isso para ontem" ou "quantas sessões serão necessárias?". Existe uma expectativa de que, depois de algumas conversas, o problema estará solucionado e o relacionamento voltará a ser como antes.
Essa urgência, porém, pode ser justamente um sinal do tamanho do sofrimento daquele casal.
Quando duas pessoas chegam desesperadas por uma solução imediata, é importante olhar para essa pressa como uma informação clínica. Existe uma dor ali. Existe algo que está sendo vivido como insuportável. E antes de correr para tentar eliminar o sintoma, talvez seja necessário compreender o que está acontecendo.
Um casal pode estar junto há vinte anos e ter passado anos construindo determinada dinâmica. Não é razoável imaginar que uma dificuldade construída ao longo de tanto tempo necessariamente será resolvida em algumas semanas.
Isso não significa que toda terapia precise ser longa ou que o casal precise permanecer anos em tratamento. Significa apenas que não existe um cronômetro universal para a transformação de uma relação.
Cada casal tem uma história.
E compreender essa história faz parte do processo.
Quando utilizamos recursos como uma linha do tempo do relacionamento, por exemplo, conseguimos perceber que aquilo que aparece como um problema atual muitas vezes está relacionado a experiências anteriores, mudanças no ciclo de vida, acontecimentos importantes, padrões que foram se estabelecendo e situações que nunca chegaram a ser verdadeiramente elaboradas.
Investigar tudo isso não é enrolação.
É terapia.
Quando a questão envolve sexualidade, essa expectativa por uma solução rápida parece ficar ainda mais evidente.
Casais podem chegar querendo saber como recuperar o desejo, aumentar a frequência sexual, melhorar o desempenho ou voltar a ter uma vida sexual parecida com aquela que tinham no início do relacionamento.
E, muitas vezes, a própria profissional pode cair nessa armadilha.
"Qual técnica eu posso ensinar para esse casal voltar a transar?"
Essa pergunta parece objetiva, mas pode esconder uma questão muito mais complexa.
A sexualidade não é um manual de instruções. Não existe uma cartilha universal capaz de ensinar todos os casais a desejar, se conectar ou ter uma determinada frequência sexual.
É claro que técnicas e exercícios podem ser recursos importantes dentro de um processo terapêutico. O problema aparece quando a técnica é utilizada antes da compreensão da demanda.
Uma mesma dificuldade sexual pode ter origens completamente diferentes.
Uma alteração hormonal, uma questão médica, o momento do ciclo de vida, o nascimento de um filho, a menopausa, a andropausa, o estresse, o excesso de trabalho, uma dificuldade individual, experiências anteriores, conflitos conjugais, ressentimentos acumulados ou a própria maneira como o casal se relaciona podem atravessar a sexualidade.
Por isso, não basta olhar para o ato sexual.
É preciso olhar para a pessoa, para o casal e para o contexto.
A sexualidade é muito mais ampla do que frequência, ereção, lubrificação, orgasmo ou penetração. Ela também envolve desejo, intimidade, segurança, prazer, comunicação, disponibilidade, corpo, autoestima e a forma como duas pessoas se encontram.
Quando ignoramos essa complexidade e simplesmente aplicamos uma técnica porque "funcionou para outro casal", podemos produzir exatamente o efeito contrário ao desejado.
O casal pode não conseguir realizar a tarefa, sentir-se frustrado e concluir que existe algo ainda mais errado com ele.
E, em determinadas situações, uma orientação excessivamente prescritiva pode ultrapassar limites importantes. A ideia de que é preciso "transar todos os dias" para recuperar o desejo, por exemplo, pode transformar a sexualidade em obrigação. E sexualidade não pode ser construída a partir da obrigação. Consentimento, desejo e segurança precisam estar presentes.
Existe uma linha muito delicada entre incentivar uma experiência e produzir pressão.
Por isso, o cuidado clínico é indispensável.
Outro ponto importante é compreender que nem toda queixa apresentada por um casal precisa necessariamente ser trabalhada exclusivamente como uma questão conjugal.
Às vezes existe uma situação pontual.
Uma pessoa pode estar atravessando um período de estresse intenso, uma alteração hormonal, uma condição médica ou um momento de sofrimento individual que está repercutindo na relação.
Nessas situações, o trabalho pode envolver diferentes profissionais. Psicóloga, terapeuta sexual, psiquiatra, ginecologista, urologista e outros profissionais podem fazer parte de uma rede de cuidado, dependendo da necessidade.
Isso não significa que a questão deixou de ser conjugal.
Significa que precisamos compreender como uma experiência individual repercute na relação e como a relação, por sua vez, influencia aquela experiência individual.
É justamente por isso que a avaliação é tão importante.
A terapeuta precisa conseguir diferenciar aquilo que é individual, aquilo que é relacional e aquilo que, embora tenha começado como uma questão individual, passou a afetar os dois.
Quando uma dificuldade persiste e começa a modificar a dinâmica do casal, ela deixa de ser apenas uma experiência individual. O sofrimento de um passa a alcançar o outro.
Existe uma metáfora muito interessante para pensar essa questão: relacionamentos não são máquinas.
Quando um relógio quebra, podemos identificar uma peça com defeito, substituí-la e esperar que ele volte a funcionar.
Um relacionamento não funciona dessa maneira.
Não existe uma única peça responsável pelo problema. Existem duas pessoas em relação, com histórias, desejos, necessidades, experiências, expectativas e maneiras diferentes de interpretar aquilo que acontece.
Quando entramos em uma lógica mecanicista, começamos a procurar o culpado.
"Ele é o problema."
"Ela precisa mudar."
"Se ele mudasse, tudo ficaria bem."
"Se ela parasse de fazer isso, nosso relacionamento funcionaria."
O problema é que, quando um casal entra nessa dinâmica, cada um passa a olhar para o outro como a peça defeituosa que precisa ser consertada.
E quando um precisa ganhar e o outro precisa perder, os dois perdem.
A terapia de casal pode ajudar justamente na construção de outro olhar. Em vez de perguntar apenas quem fez o quê, podemos começar a investigar o que acontece entre essas duas pessoas.
Como essa dinâmica se constrói?
O que cada um faz que ativa o melhor ou o pior do outro?
Como cada parceiro responde quando se sente rejeitado, criticado, abandonado ou desconsiderado?
O que cada um está fazendo para manter, mesmo sem perceber, o padrão que gostaria de modificar?
Essas perguntas deslocam o casal da culpabilização para a responsabilização.
E responsabilização não significa assumir toda a culpa. Significa reconhecer que cada pessoa tem participação na relação e, portanto, também pode participar da transformação dela.
A mudança mais importante talvez seja sair da lógica do conserto e entrar na lógica da compreensão.
Quando pensamos que algo está quebrado, queremos reparar rapidamente.
Quando pensamos que algo precisa ser compreendido, aceitamos que será necessário olhar com mais profundidade.
Uma relação pode passar por situações que deixam marcas. Algumas podem ser reparadas. Outras não voltarão a ser exatamente como eram.
Mas isso não significa necessariamente que tudo precisa ser descartado.
Às vezes, é possível ressignificar.
Uma relação depois de uma crise pode não ser igual à relação anterior à crise. E talvez o objetivo não seja voltar exatamente ao que existia antes, mas construir uma nova forma de estar juntos a partir do que foi vivido.
Isso também vale para a sexualidade.
Talvez o objetivo não seja recuperar exatamente a frequência que existia no início do relacionamento. Talvez seja compreender o que mudou, descobrir como o desejo funciona hoje e encontrar novas maneiras de construir intimidade.
O relacionamento não precisa voltar a ser o que era.
Ele pode se transformar no que será.
A sexualidade contemporânea também precisa ser compreendida dentro de um contexto em que pornografia, redes sociais, celulares e outros estímulos estão constantemente disponíveis.
A questão não é simplesmente definir essas experiências como certas ou erradas.
É compreender a relação que cada pessoa estabelece com elas.
O problema pode aparecer quando determinado comportamento começa a ocupar um espaço tão grande que interfere na vida, no desejo, na intimidade ou na relação.
Nesse sentido, mais do que rotular imediatamente uma pessoa como "viciada", é importante compreender seus impulsos e avaliar o impacto daquele comportamento em sua qualidade de vida.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras áreas da vida.
Às vezes, o casal parece precisar de conflitos constantes para sentir que alguma coisa está acontecendo. Uma pequena discussão rapidamente se transforma em uma grande briga. A intensidade passa a ocupar um espaço tão grande que o casal quase não consegue experimentar outras formas de conexão.
Aprender a interromper esse ciclo também é uma forma de cuidado.
Nem toda discussão precisa virar uma guerra.
Nem todo desconforto precisa ser imediatamente resolvido.
Nem todo impulso precisa ser seguido.
Às vezes, é preciso aprender a pausar.
Essa é uma pergunta que muitos casais fazem.
"Estamos fazendo terapia, mas parece que nada está mudando."
Nesse momento, desistir imediatamente pode não ser a melhor resposta.
Primeiro, é importante investigar o que significa esse "não está funcionando".
O casal esperava uma solução rápida?
A terapeuta e o casal estão alinhados em relação aos objetivos do processo?
Existe vínculo terapêutico?
A abordagem utilizada faz sentido para aquela demanda?
O casal está conseguindo falar sobre aquilo que realmente precisa ser trabalhado?
Ou será que o processo está começando a tocar em questões mais profundas e, por isso, está exigindo mais tempo?
Às vezes, aquilo que parece ausência de progresso é justamente o momento em que uma questão importante começa a aparecer.
Por isso, conversar com a terapeuta sobre a sensação de que a terapia não está funcionando pode ser extremamente valioso.
Se o casal percebe que algumas coisas não estão sendo resolvidas, isso também é material terapêutico.
Pode ser o começo de uma conversa importante.
E, quando necessário, também é legítimo considerar a possibilidade de buscar outro profissional. O vínculo terapêutico importa e nem toda terapeuta será a melhor escolha para todos os casais.
No fundo, muitos dos mitos sobre terapia de casal têm algo em comum: a expectativa de que alguém de fora possa resolver rapidamente aquilo que duas pessoas levaram tempo para construir.
Queremos respostas prontas.
Queremos técnicas milagrosas.
Queremos saber quem está certo.
Queremos consertar o outro.
Queremos recuperar imediatamente aquilo que perdemos.
Mas a terapia de casal propõe outra coisa.
Ela convida o casal a olhar para a própria história, compreender seus padrões, reconhecer suas responsabilidades, escutar verdadeiramente o outro e fazer escolhas mais conscientes.
Nem sempre isso significa permanecer juntos.
Nem sempre significa se separar.
Significa compreender.
Relacionamentos não são máquinas que quebram e precisam apenas de uma peça nova. São histórias, experiências e construções que estão constantemente se transformando.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja "como podemos resolver isso rapidamente?", mas "o que precisamos compreender sobre a relação que estamos construindo?".
Porque, quando o casal deixa de procurar alguém para consertar o relacionamento e começa a se implicar naquilo que acontece entre os dois, algo importante já começou a mudar.
E talvez seja justamente aí que a terapia de casal deixe de ser um lugar para encontrar respostas prontas e passe a ser um espaço para construir novas possibilidades.
Psicóloga CRP 07/26032 com Especialização em Terapia Sistêmico-Cognitivo de Famílias e Casais e em Sexualidade Humana. Tem como missão auxiliar pessoas e casais a descobrirem e se conectarem com sua forma de amar (monogâmica ou não). Hoje realiza sua missão através dos atendimentos clínicos online a casais e também através da capacitação Ser Terapeuta de Casal que educa e empodera psicólogas no atendimento com casais. Luta por um mundo em que a diversidade seja reconhecida para que todos possam receber atenção, acolhimento e atendimento qualificado. Idealizadora deste site de indicações e supervisora das/os psicólogas/os nele cadastradas/os.