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Comunicação Não Violenta: quando a empatia se torna caminho para o amor

Comunicação Não Violenta: quando a empatia se torna caminho para o amor

por Evandra Marinho Pereira - CRP 02/9875

Quem trabalha com relacionamentos ou vive uma relação de perto sabe que muitas das dores que aparecem na terapia de casal poderiam, facilmente, ser de qualquer pessoa. Queixas parecidas, conflitos que se repetem e a sensação constante de não ser compreendido atravessam histórias muito diferentes entre si. Foi a partir desse olhar que nasceu a conversa sobre Comunicação Não Violenta no podcast Ouvi na Terapia de Casal, um convite para refletir sobre novas formas de se encontrar no amor.

A Comunicação Não Violenta, desenvolvida por Marshall Rosenberg, é muito mais do que uma técnica de conversa. Ela propõe uma maneira diferente de se expressar e de se relacionar, baseada na empatia, na escuta genuína e no respeito mútuo. Em vez de partir do ataque, da defesa ou do julgamento, a CNV convida a pessoa a olhar para dentro e compreender o que está sentindo e do que precisa antes de falar com o outro.

Essa forma de comunicação se sustenta em quatro movimentos fundamentais. O primeiro é a observação, que consiste em descrever o que aconteceu sem julgamentos ou interpretações. Em seguida, entram os sentimentos, quando a pessoa nomeia o que sente diante daquela situação. O terceiro ponto são as necessidades, que ajudam a entender o que está por trás da emoção experimentada. Por fim, vem o pedido, que substitui a exigência por um convite claro e possível de ser atendido.

Quando esses passos são colocados em prática, o conflito muda de lugar. Em vez de acusações como "você nunca quer conversar" ou "parece que não se importa comigo", a comunicação passa a soar de forma mais vulnerável e conectada. Algo como "quando tento conversar e você se fecha, eu me sinto sozinha e frustrada, porque preciso de mais conexão emocional entre nós" cria espaço para aproximação, não para defesa. O pedido que vem depois convida ao diálogo, não à briga.

Esse processo, no entanto, exige algo que muitas vezes esquecemos no dia a dia dos relacionamentos: a pausa. O corpo reage de forma impulsiva diante do conflito, e sem perceber entramos em um ciclo automático de ataque e defesa. A Comunicação Não Violenta propõe exatamente o contrário. Ela convida a parar, observar o que está acontecendo internamente e escolher uma resposta mais consciente, em vez de uma reação impulsiva.

Muitos casais chegam à terapia dizendo que não se entendem. O que costuma faltar, na maioria das vezes, não é amor, mas essa capacidade de observar, escutar e compreender o que está por trás do conflito. A CNV ajuda o casal a olhar além das palavras duras e perceber quais pedidos estão escondidos ali. Quando isso acontece, o conflito deixa de ser visto como uma ameaça e passa a ser compreendido como uma tentativa, ainda que desajeitada, de conexão.

A escuta ocupa um lugar central nesse processo. Escutar sem julgar é um dos maiores desafios nas relações afetivas, especialmente quando a dor está presente. O julgamento cria distância, enquanto a escuta empática aproxima. Quando o casal aprende a escutar de verdade, começa a perceber que o conflito não significa falta de amor, mas uma forma de expressar frustração, medo ou necessidade não atendida.

Outro ponto fundamental trazido pela Comunicação Não Violenta é a diferenciação entre empatia e passividade. Falar com empatia não é ser doce o tempo todo, nem engolir o que se sente para evitar conflito. Empatia está muito mais ligada à autenticidade do que à tentativa de agradar. Ser empático é falar com verdade, com coerência entre o que se sente e o que se expressa. Não se trata de ser bonzinho, mas de ser genuíno.

Muitas pessoas confundem falar com o coração com um discurso romântico ou fantasioso. Na prática, falar com o coração é falar com autenticidade. É reconhecer a própria dor, nomeá-la e compartilhá-la de forma responsável, sem atacar o outro e sem se anular. A passividade tenta fugir do conflito. A Comunicação Não Violenta, ao contrário, encara o conflito com coragem e presença.

Nesse caminho, a reparação ganha um papel essencial. Reparar não é apenas pedir desculpas, mas reconhecer o erro com consciência, compreender o impacto causado no outro e assumir a responsabilidade pelo que foi feito. Um pedido de desculpas genuíno não é protocolo, é transformação. Ele abre espaço para mudança de comportamento e fortalece o vínculo, porque transmite cuidado e respeito.

A CNV ajuda o casal a sair da lógica de quem está certo ou errado e entrar na pergunta mais importante de todas: o que cada um está precisando agora. Quando essa mudança acontece, a relação deixa de ser um campo de batalha e se transforma em um espaço de parceria. A sensação de time é resgatada, e a intimidade emocional se aprofunda.

Praticar Comunicação Não Violenta no dia a dia começa com pequenas mudanças de postura. Observar mais, julgar menos, transformar críticas em expressões de sentimento e necessidade e trocar o "você sempre" pelo "eu me sinto". Essa mudança aparentemente simples cria segurança emocional e permite que o casal se reconecte com mais honestidade e cuidado.

A Comunicação Não Violenta não apaga o passado nem elimina os conflitos. O que ela oferece é um novo jeito de atravessá-los. Um caminho baseado em escuta, vulnerabilidade, empatia e clareza. Um convite para que cada pessoa possa ser quem é dentro da relação, sem máscaras e sem medo, encontrando no diálogo um espaço possível de amor e reconstrução.

Evandra Marinho Pereira

Formada em Psicologia pela UFPE. Especialista em Psicologia Clínica de Orientação Analítica pela UNICAP. Cursos: Teaching Parenting the Positive Discipline Way to become a Certified Positive Discipline Parent Educator ministrado via zoom por Bete Rodrigues; Curso on-line de Formação Integral em Educação Parental, ministrado por Bete Rodrigues. O casal: um olhar psicanalítico ministrado via zoom por Humberto da Silva Menezes Jr. Instituto Brasileiro de Psicanálise - SP.